maio 31, 2006

Já esteve mais longe...

Posted by Filipa at 02:14 PM | Comments (686)

As palavras não são
sentimentos. Servem
mas não os contêm.
OBRIGADA
por tudo e para sempre
por me iniciares
na vida, nas palavras,
por utilizares
como afago ou agulha
palavras.
Agora tento,
pelas palavras,
descobrir.
OBRIGADA
mas agora as palavras já
não são tuas,
pertencem-me.
E com palavras
te digo
OBRIGADA
a chorar, a gritar, mas ainda assim
OBRIGADA.
Olha para mim e escuta
as palavras
que há vinte anos me entregavas.
Vês? Cresceram.
São agora
palavras
grandes, altas, crescidas.
OBRIGADA
e como qualquer mestre
sofres:
o discípulo é como as palavras.
OBRIGADA

Posted by Filipa at 01:49 AM | Comments (72)

Diz Sophia...

"Pensava que os poemas não eram escritos por ninguém, que existim em si mesmos, por si mesmos, que eram como um elemento natural, que estavam suspensos, imanentes. E que bastaria estar muito quieta, calada e atenta para os ouvir. Desse encontro inicial ficou em mim a noção de que fazer versos é estar atento e de que o poeta é um escutador."

Sophia de Mello Breyner Andresen
Arte Poética IV

Posted by Filipa at 01:03 AM | Comments (1)

maio 24, 2006

Ao início de alguma coisa

Uma Forma de Me Despedir

Há o mar há a mulher
quer um quer o outro me chegam em acessíveis baías
abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos
Oiço chamar mas não de uma forma qualquer
chamar mas de uma certa maneira
talvez um apelo ou uma presença ou um sofrimento
Ora eu que no fundo
apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas dos dicionários
bem vistas as coisas disponho somente de duas palavras
desde a primeira manhã do mundo
para nomear só duas coisas
apenas preciso de as atribuir
Não sei se gosto mais do mar
se gosto mais da mulher
Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher
e quando digo o mar a mulher
não digo mar ou mulher só por dizer
Ao dizer o mar a mulher
há penso eu um certo tom na minha voz sinto um certo travo na boca
que mostram que mais que palavras usadas para falar
dizer como eu digo a mulher o mar
mar mulher assim ditos
são uma maneira talvez de gostar
e a consciência de que se gosta
e um prazer em o dizer
um gosto afinal em gostar
Enfim o mar a mulher
pode num dos casos ser a/mar a mulher
mera forma talvez de uniformizar o artigo
definido do singular
Há ondas no mar
o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos cabelos da mulher
que ela faz ondular melhor de tarde em tarde
no mês de setembro nas marés vivas
O melhor da mulher talvez o olhar
é para mim o mar da mulher
e à mulher que um só dia encontro na vida
de passagem um simples momento num sítio qualquer
talvez a muitos quilómetros do mar
mas mulher que não mais consigo esquecer
mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados
a essa mulher qualquer
eu chamo mulher do mar
Nos fins de setembro quando eu partir
de uma cidade seja ela qual for
quando eu pressentir que alguém morre
que alguma coisa fica para sempre nos dias
e ou nuns olhos ou numa água
num pouco de água ou em muita água
onda do mar lágrima ou brilho do olhar
eu recear seriamente vir-me a submergir
direi alto ou baixo conforme puder
com a boca toda ou já a custar-me a engolir
as palavras mar ou mulher
com certo vagar e cada vez mais devagar
mulher mar
depois quase já só a pensar
o mar a mulher
Não sei mas será
talvez mais que outra coisa qualquer
uma forma de me despedir

Ruy Belo

Porque gosto, porque gostei de o ler hoje para vocês.

Posted by Filipa at 01:50 AM | Comments (4)

maio 17, 2006

A arte efémera

Insectos de relva feitos por vendedores ambulantes em Milão.

Posted by Filipa at 09:35 PM | Comments (4)
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