- Quer explicar-me o que sabe acerca do caso? - O inspector olhava para mim de uma forma que só os inspectores conseguem.
Não me sentindo minimamente culpada, estava já pronta a chorar. O queixo começara-me a tremer e as lágrimas desfocavam, lentamente, a minha visão.
- Ó minha senhora, vamos lá a ter calma! O que menos preciso agora é de uma sessão de choradeira. - E tendo dito isto calou-se.
Olhei-o frontalmente e toda a minha aflição se transformou em raiva.
Após uns segundos de silêncio, comecei: - Conheci a D. Agripina, anteontem, na Segurança Social. Eu estava lá porque sou professora de História e não fui colocada este ano. Ela, porque a firma de limpezas onde trabalhava fechou. Perguntou-me se acreditava em Deus. Como não gosto muito desse tipo de conversas acenei que sim, vagamente. Disse-me que tinha sido Testemunha de Jeová e aproveitei logo para lhe perguntar o que sempre me intrigara: a origem do nome Jeová. Explicou-me que um nome é uma marca indelével, que Deus ou Criador são títulos e podem ser aplicados a diversas personalidades distintas. Mas que Jeová é nome pessoal e pertence a Deus Todo-Poderoso e Criador do Universo. E tendo-me dito isto com tamanha paixão, fiquei curiosa, quis saber mais, perguntei-lhe a razão pela qual já não era Testemunha de Jeová. Explicou-me então toda a sua história: era completamente dedicada à palavra de Jeová, todos os seus amigos faziam parte da congregação e sentia-se feliz. Trabalhava na tal firma de limpezas e, nos tempos livres, estudava os ensinamentos bíblicos. Até que um dia, através do cunhado, conheceu um moldavo e apaixonou-se. Quis casar-se mas era muito caro, não o casamento em si, porque não precisava de grandes festas, mas era preciso mandar traduzir na embaixada a documentação necessária e cada papel tinha um preço absurdo, oitenta euros, se não me engano. Como tal era absolutamente inexequível.
O inspector olhou-me confuso. Resolvi reformular e continuei: - Impraticável, irrealizável. Assim sendo, falou com a congregação, expôs o problema e, em vez de a ajudarem, foi expulsa. Não sei se o Sr. inspector sabe mas quando uma Testemunha de Jeová é expulsa não pode estabelecer mais nenhum contacto com os restantes membros. Os antigos amigos passavam por ela na rua e desviavam o olhar. Sofreu muito a D. Agripina, pelo que me disse, com a expulsão, claro. Estava então num ímpasse. Sozinha, sem amigos, queria ir viver com o tal moldavo, mas de acordo com os ensinamentos bíblicos viver em união, sem ter casado, é pecado. E, não querendo pecar, tentava arranjar o dinheiro necessário para casar e poder ser aceite novamente na congregação. Quando me disse tal coisa fiquei surpreendida. Afinal de contas, se fosse comigo não voltava à congregação nem obrigada, mas não me pronunciei. Perguntei-lhe o nome do futuro marido, para não ficar calada, sabe como é, e ela disse-me que era Ivan. O Sr. Inspector não me conhece, mas sou muito brincalhona. Perante o nome Ivan, ri-me e comentei teatralmente: Ivan, o Terrível. Perante o ar estupefacto da D. Agripina, percebi que esta não sabia quem havia sido tal personagem. Expliquei-lhe então que tinha sido o primeiro czar da Rússia e que tinha como cognome “o Terrível” por ter morto o próprio filho. Foi nessa altura que a D. Agripina se levantou, repetindo a tal história de um nome ser uma marca profunda, de tudo aquilo ser uma provação, não percebi mais nada. Nem se despediu de mim, foi-se simplesmente embora. E pronto, Sr. Inspector, é tudo o que sei.
Calei-me. O inspector olhou-me fixamente. Ao fim de uns segundos levantou-se e disse-me:
- Obrigada pelo seu testemunho. Percebo agora o porquê da D. Agripina me ter indicado o seu nome para que eu percebesse o que a tinha levado a envenenar o Sr. Ivan. Está dispensada por agora.
Levantei-me e, ao encaminhar-me para a porta, o inspector chamou-me.
Virei-me novamente para ele.
- Passe bem, Drª Pandora. – e tendo dito isto, sorriu.