agosto 22, 2003

Aeroportos

Adoro aeroportos desde sempre.

É o resultado de uma família separada por um oceano e de uns pais que levam as filhas somente às chegadas, nunca às partidas.

No meu imaginário de miúda, o aeroporto estava povoado de malas cheias de presentes, de falares estranhos, de adultos bem dispostos como crianças e de observações de aviões junto ao meu pai que debitava, com o dedo no ar e sorriso no lábios, os modelos das aeronaves e as diferenças entre eles.

A melhor profissão do mundo devia ser, pensava eu, a da mãe da Filipa Bébé (por alguma razão até hoje estranha a Filipa era chamada de Filipa Bébé embora já não o fosse) que era hospedeira. Tinha uma farda engraçada, azul e vermelha, e era muito bonita por ser hospedeira e não o contrário como mais tarde pude constatar.

O tempo passou, os nomes dos modelos de aviões foram ocupados na minha memória por fórmulas matemáticas, datas históricas e pesos atómicos; os falares estranhos revelaram-se conhecidos e os aeroportos passaram a ser também lugar para chorosas despedidas. Mas não perderam o encanto. Nem quando partiram uma garrafa de vinho do Porto que transportara com tanto carinho no aeroporto de Guarulhos. Nem quando tive de correr de uma ponta à outra do aeroporto de Madrid em quinze minutos carregada como uma mula. Nem quando me trataram mal à entrada do avião em Milão porque cheguei atrasada mas cheia de compras de free-shop. Nem quando me disseram que só podia fumar em ilhotas cancerígenas no aeroporto de Berlim.

Mas este mês fiquei chateada devido a duas situações.

Quando vou buscar alguém ao aeroporto costumo, tal como todas as outras pessoas, observar as famílias dos outros recém chegados, imaginar quem chega e ver as saudações efusivas da praxe aquando do reencontro. Tal como no metro, ali está um magote de gente, sem nada que fazer, à espera do momento esperado. É natural que nos observemos mas, ao contrário do que acontece no metro, até trocas de sorrisos são possíveis.

1. Domingo, dia 10 de Agosto, por volta das 23h30. Fui buscar uma grande amiga que voltava de um estágio não muito bem sucedido noutro país da comunidade europeia. Ali estava eu, ansiosa, juntamente com os seus pais, namorado e outros amigos comuns. Observava uma senhora que olhava para o relógio insistentemente. Devia estar ansiosa. Finalmente chega a aguardada parente. Era a filha, com uns catorze anos, e ao contrário do que estava à espera, nada de grandes beijos nem de sorrisos de felicidade. A mãe comprimentou-a com um simples e brusco: "- ´Tava a ver que não, filha! Despacha-te que o Zé está lá fora à espera."

Imagino então a conversa dentro do carro do Zé.
Filha: "Peço desculpa pelo atraso."
Mãe: "Óh filha, é domingo quer se dizer. Amanhã trabalhamos."
Zé: "Prontosss, não discutas com a miúda que agora não adianta nada. Até consegui enrolar o bófia que me veio chatear só porque estava parado na zona de cargas e descargas. Realmente, os bófias estão cada vez pior, sempre a chatear um gajo!!! Deviam querer que gastasse o dinheirão que nos levam no parque. Ah pois é!"
Mãe: "É pedir muito telefonares quando te atrasas? Estava a ver a novela da TVI e saí de propósito para te vir buscar. Estive ali tanto tempo que tive de comer um kg de gomas para não cair para o lado de tédio."
Filha (gaguejando): "Eu pedi ao comissário de bordo só para fazer um telefonemazinho do telemóvel, mas ele não deixou. Até fui para a casa de banho tentar mandar um sms mas, com a turbulência, o telemóvel caiu na sanita."
Mãe (berrando): "O quê? Estarei a ouvir bem?"
Filha (quase a chorar): E depois até lhe pedi para tentarem andar mais depressa.
Mãe (histérica): Mas tu pensas que o dinheiro nasce nas árvores ou quê? Não posso crer, um telemóvel que te dei só há dois anos, ganho com tanto esforço através dos pontos da TMN para o galheiro? Tu ouvistesss isto, Zé?
Filha (sussurrando): Desculpa, mãe.
Mãe perde a cabeça e esbofeteia a filha. Afinal é domingo, o pior dia da semana. Azar da filha, devia ter chegado no sábado de manhã. Não há novelas a essa hora, os documentários da BBC são muito intelectuais para a mãe e o Zé até talvez entrasse no aeroporto com o fato de treino habitual e o bigode aparado.

2. Quarta-feira, dia 20 de Agosto por volta das 14 horas.
Vou despedir-me do meu primo e da mulher que vão estudar para Paris (mais uma divisão na família). Ao entrar nas escadas rolantes sou atropelada por um homem que nem olha para mim. Pronta para refilar, reparo primeiro nas imensas tatuagens que este têm. E depois nos aneis de ouro. E depois no cordão de ouro ao pescoço. E só depois na cara. Ainda bem que não abri a boca. Era o Sandro G. e não gosto mesmo de gajos que nos chamam galinhas. Ainda por cima quando estão acompanhados por um galo que mais parece uma perua.

Adiante. Já fizeram o check in e vamos comer ao astrolábio. Peço um croissant com queijo e um ucal fresco. Não há croissants. Mudo para tosta de queijo. Vai demorar. Que remédio. Não há ucal, só mimosa. Pode ser. Não há mimosa fresco, só natural. Mas afinal que raio de serviço é aquele? E a senhora responde com um tenha paciência, o aeroporto tem estado cheio. ORA, SANTA PACIÊNCIA PARA A SENHORA TAMBÉM!!!! É AGOSTO, É NORMAL QUE ESTEJA CHEIO!


Posted by Filipa at agosto 22, 2003 10:54 PM
Comments

gostei de te ler

Posted by: Ana at agosto 25, 2003 03:37 AM

Vai estrear um filme passado num aeroporto... chama-se 'Jet Lag'

Posted by: Ana at agosto 27, 2003 11:28 PM

Também adoro aeroportos.
Encontrei-me com a Cristine várias vezes em aeroportos e estou em posição de refutar categoricamente quem afirma (arquitectos e urbanistas intelectuais fazem-no) que os aeroportos são "não-lugares".
O Astrolábio foi renovado.
É de esperar que tenham rifado o gerente e que passem a ter tudo em stock abundante.

Posted by: Fantasma da Ópera at julho 24, 2004 06:59 PM
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